segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Tempo Para


     – Você está com os cílios cheios de neve. – Kent passa o dedo pelas minhas pálpebras e sobre a ponta do meu nariz, me fazendo tremer. – E no seu cabelo. – Uma mão tremendo, a sensação de ponta de dedos, uma palma no meu pescoço, paraíso.
     – Kent. – Enrolo os dedos no colarinho da caminha dele. Independente do quanto ele esteja próximo, não é o suficiente. – Você alguma vez sente medo de dormir? Medo do que vem depois?
     Ele dá um sorriso triste, e juro que é como se ele soubesse.
     – Às vezes tenho medo do que estou deixando para trás. – ele diz.
     Nós nos beijamos outra vez, nossos corpos e bocas se movendo juntos de forma tão coordenada que é como se nem estivéssemos nos beijando, apenas pensássemos em nos beijar, em respirar, em tudo certo, natural, inconsciente e relaxado, uma sensação não de tentativa, mas de completo abandono, de deixar rolar, e exatamente ali e naquele instante o impensável e o impossível acontece: o tempo para afinal de contas. O tempo e o espaço retrocedem e explodem como se o universo se expandisse eternamente, deixando apenas a escuridão e nós dois em seu perímetro, escuridão, respiração e toque. 
                                                                 (Página 314 – Antes Que Eu Vá)

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